Pode parecer engraçado à primeira vista, mas talvez os aplicativos de relacionamento funcionem exatamente como uma grande feira emocional. O feirante monta sua banca separando os tomates mais feinhos primeiro, colocando-os na base da pilha, enquanto os mais bonitos vão ficando por cima, cuidadosamente organizados para chamar atenção. As pessoas passam, observam, comparam, analisam valor, aparência e possibilidade. Caminham entre dezenas de bancas procurando sempre o melhor tomate, mesmo cercadas por centenas de outros “vegetais diferentes”. Porque, no fim, quem quer tomate continuará procurando tomate (padrões repetitivos de comportamento). E talvez seja exatamente assim que estejamos vivendo nossas relações hoje: transformando pessoas em produtos expostos numa vitrine digital, onde todos desejam ser escolhidos, mas poucos realmente permanecem. 🍅🍅🍅
Definida a banca, começa o ritual da escolha. O consumidor pega um tomate, olha, vira, aperta, devolve. Pega outro. Esse parece verde demais. O outro já parece maduro demais. Então vai escolhendo cuidadosamente quais tomates levar para casa. E talvez seja exatamente isso que fazemos nos aplicativos: analisamos rostos, frases, gostos, músicas, signos, distâncias, estilos de vida, como quem examina frutas numa feira tentando encontrar a combinação perfeita entre desejo, expectativa e idealização.
E talvez o detalhe mais curioso seja que ninguém entra numa feira procurando apenas alimento. Procuramos validação da própria escolha. Queremos sentir que fizemos o melhor negócio, que encontramos o melhor tomate pelo melhor valor. Nos aplicativos acontece algo parecido. Não basta encontrar alguém interessante. Precisamos sentir que escolhemos “bem”. Que conseguimos acessar alguém desejado, bonito, inteligente, raro. O match deixa de ser apenas conexão e passa a funcionar também como validação emocional, estética e social.
A lógica deixa de ser afetiva e passa a ser mercadológica.
As pessoas começam a fazer marketing de si mesmas. Escolhem cuidadosamente as melhores fotos, editam partes da personalidade, escrevem biografias estratégicas, escondem inseguranças, exibem experiências, viagens, gostos musicais e estilos de vida como quem organiza uma embalagem para competir numa prateleira. O amor contemporâneo começa a adotar linguagem de publicidade. Já não basta ser interessante. É preciso parecer interessante em poucos segundos.
E o algoritmo entende isso perfeitamente.
Os aplicativos foram construídos para manter pessoas consumindo possibilidades. A dinâmica não incentiva profundidade; incentiva permanência na plataforma. Quanto mais rostos aparecem, mais o cérebro acredita que talvez exista alguém melhor logo adiante. Surge então a ilusão da abundância infinita. Nunca houve tantas possibilidades de encontro e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil permanecer.
Porque escolher alguém hoje significa, psicologicamente, abrir mão de milhares de outras possibilidades disponíveis na tela.
E o excesso de opção gera ansiedade.
A pessoa conversa com alguém enquanto imagina quem poderá aparecer no próximo deslizar de dedo. Cria-se um estado emocional permanente de comparação. Nenhuma conexão consegue amadurecer totalmente porque todas competem contra infinitas alternativas imaginárias. O relacionamento deixa de ser uma experiência de construção e passa a funcionar como teste constante de satisfação.
Talvez por isso tanta gente viva cansada emocionalmente.
Estamos hiperconectados, mas profundamente fatigados. Conversamos com dezenas de pessoas sem necessariamente criar intimidade real com nenhuma delas. Consumimos pequenas doses de validação instantânea: um match, uma curtida, uma resposta rápida, um elogio. São pequenas descargas emocionais que alimentam o ego momentaneamente, mas raramente constroem permanência.
Lembrei de um vídeo engraçado, mas profundamente simbólico. A mulher escolhia os tomates e os colocava na sacola. O marido pegava exatamente o mesmo tomate da sacola e devolvia para ela como sugestão. Então ela recusava o tomate e o jogava novamente no meio dos outros, simplesmente porque não tinha sido ela quem escolheu. A cena se repetia até ela perceber que sua própria sacola estava vazia. Furiosa, brigava com o companheiro sem perceber que havia descartado exatamente aquilo que já tinha escolhido antes (LINK).
Talvez exista algo muito contemporâneo nessa cena.
Queremos escolher tudo sozinhos. Quando alguém valida demais, sugere demais ou facilita demais, o encanto desaparece. A autonomia da escolha parece valer mais do que a própria escolha. Existe quase uma erotização da conquista difícil. Quando algo parece facilmente disponível, perde valor simbólico. O desejo contemporâneo parece funcionar mais pela excitação da busca do que pela experiência da permanência.
Bom, aqui somos tomates.
Estamos ali para sermos escolhidos. Dependendo do gosto de quem passa pela banca, podemos despertar interesse ou sermos completamente ignorados. Às vezes somos levados para a sacola. Outras vezes ficamos esquecidos entre centenas de opções semelhantes. E mesmo quando somos escolhidos, isso não significa muita coisa. Vamos para a fruteira da casa de alguém e permanecemos ali, esperando.
Esperando uma conversa continuar.
Esperando um convite acontecer.
Esperando que o interesse sobreviva aos próximos matches.
Esperando não sermos apenas mais uma possibilidade guardada para depois.
Talvez essa seja a grande tragédia emocional dos aplicativos: eles não criaram apenas novas formas de encontro. Criaram também novas formas de adiamento. As pessoas acumulam contatos como quem abastece uma despensa emocional. Matches viram estoque afetivo. Conversas ficam em suspensão. Vínculos permanecem em banho-maria enquanto novas possibilidades continuam surgindo infinitamente na tela.
Criamos uma espécie de “fruteira emocional contemporânea”.
Pessoas guardadas para depois.
Conversas interrompidas.
Relações em estado de espera.
Afetos congelados pela abundância de opções.
E então o tempo passa.
O consumidor sai para jantar fora. Recebe outros convites. Conhece novos tomates em outras bancas. Alguns daqueles tomates escolhidos continuam esquecidos na fruteira. Até que um dia ele olha novamente e percebe que já passaram do ponto.
O destino final é o descarte.
E talvez o ghosting seja exatamente isso: o descarte silencioso daquilo que perdeu utilidade emocional antes mesmo de amadurecer como vínculo. Sem explicação. Sem encerramento. Sem elaboração. Apenas o desaparecimento lento de alguém que antes parecia interessado.
O problema é que ninguém passa ileso por isso.
A repetição constante dessas experiências cria insegurança afetiva, medo de vulnerabilidade e dificuldade de entrega. As pessoas começam a entrar nos aplicativos tentando evitar sofrimento, mas acabam reproduzindo exatamente as mesmas dinâmicas que as feriram. Tornam-se mais defensivas, mais superficiais, mais rápidas, mais descartáveis.
E então acontece algo perigoso: começamos a consumir pessoas da mesma forma que consumimos conteúdo.
Rápido.
Fragmentado.
Ansioso.
Substituível.
Talvez a pior parte disso tudo seja perceber que não somos apenas os tomates esquecidos. Também somos os consumidores. Também escolhemos, comparamos, adiamos, ignoramos, acumulamos e descartamos pessoas sem perceber. Criticamos a superficialidade enquanto deslizamos rostos com o dedo. Reclamamos da falta de profundidade enquanto mantemos dezenas de conversas mornas ao mesmo tempo. Nos tornamos participantes ativos de uma lógica emocional baseada na abundância, no imediatismo e na constante sensação de que talvez exista alguém melhor logo na próxima rolagem de tela.
O sociólogo Zygmunt Bauman chamava isso de relações líquidas: vínculos frágeis, flexíveis e facilmente substituíveis (link trabalho científico sobre assunto). Mas talvez hoje já tenhamos ido além da liquidez. Talvez estejamos vivendo relações em estado de vitrine. Relações que precisam parecer interessantes o tempo inteiro para não serem descartadas.
E no meio dessa feira digital do amor, algumas perguntas começam a ecoar silenciosamente:
O que estamos fazendo aqui?
Isso realmente leva alguém a algum lugar?
Ainda temos coragem de construir permanência?
Ainda sabemos aprofundar vínculos?
Ou nos acostumamos apenas a consumir pessoas emocionalmente?
Talvez o problema não esteja apenas nos aplicativos. Talvez esteja em nós. Na maneira como aprendemos a desejar sem permanecer, consumir sem aprofundar e substituir sem elaborar. Transformamos relações humanas em experiências rápidas, organizadas numa vitrine infinita de rostos, expectativas e projeções.
No fim, talvez a maior pobreza dos aplicativos de relacionamento não seja a falta de opções.
Talvez seja a falta de presença.
