segunda-feira, 18 de maio de 2026

Somos tomates na feira digital do amor: entre matches, ghosting e a pobreza emocional dos aplicativos de relacionamento

Pode parecer engraçado à primeira vista, mas talvez os aplicativos de relacionamento funcionem exatamente como uma grande feira emocional. O feirante monta sua banca separando os tomates mais feinhos primeiro, colocando-os na base da pilha, enquanto os mais bonitos vão ficando por cima, cuidadosamente organizados para chamar atenção. As pessoas passam, observam, comparam, analisam valor, aparência e possibilidade. Caminham entre dezenas de bancas procurando sempre o melhor tomate, mesmo cercadas por centenas de outros “vegetais diferentes”. Porque, no fim, quem quer tomate continuará procurando tomate (padrões repetitivos de comportamento). E talvez seja exatamente assim que estejamos vivendo nossas relações hoje: transformando pessoas em produtos expostos numa vitrine digital, onde todos desejam ser escolhidos, mas poucos realmente permanecem. 🍅🍅🍅

Definida a banca, começa o ritual da escolha. O consumidor pega um tomate, olha, vira, aperta, devolve. Pega outro. Esse parece verde demais. O outro já parece maduro demais. Então vai escolhendo cuidadosamente quais tomates levar para casa. E talvez seja exatamente isso que fazemos nos aplicativos: analisamos rostos, frases, gostos, músicas, signos, distâncias, estilos de vida, como quem examina frutas numa feira tentando encontrar a combinação perfeita entre desejo, expectativa e idealização.

E talvez o detalhe mais curioso seja que ninguém entra numa feira procurando apenas alimento. Procuramos validação da própria escolha. Queremos sentir que fizemos o melhor negócio, que encontramos o melhor tomate pelo melhor valor. Nos aplicativos acontece algo parecido. Não basta encontrar alguém interessante. Precisamos sentir que escolhemos “bem”. Que conseguimos acessar alguém desejado, bonito, inteligente, raro. O match deixa de ser apenas conexão e passa a funcionar também como validação emocional, estética e social.

A lógica deixa de ser afetiva e passa a ser mercadológica.

As pessoas começam a fazer marketing de si mesmas. Escolhem cuidadosamente as melhores fotos, editam partes da personalidade, escrevem biografias estratégicas, escondem inseguranças, exibem experiências, viagens, gostos musicais e estilos de vida como quem organiza uma embalagem para competir numa prateleira. O amor contemporâneo começa a adotar linguagem de publicidade. Já não basta ser interessante. É preciso parecer interessante em poucos segundos.

E o algoritmo entende isso perfeitamente.

Os aplicativos foram construídos para manter pessoas consumindo possibilidades. A dinâmica não incentiva profundidade; incentiva permanência na plataforma. Quanto mais rostos aparecem, mais o cérebro acredita que talvez exista alguém melhor logo adiante. Surge então a ilusão da abundância infinita. Nunca houve tantas possibilidades de encontro e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil permanecer.

Porque escolher alguém hoje significa, psicologicamente, abrir mão de milhares de outras possibilidades disponíveis na tela.

E o excesso de opção gera ansiedade.

A pessoa conversa com alguém enquanto imagina quem poderá aparecer no próximo deslizar de dedo. Cria-se um estado emocional permanente de comparação. Nenhuma conexão consegue amadurecer totalmente porque todas competem contra infinitas alternativas imaginárias. O relacionamento deixa de ser uma experiência de construção e passa a funcionar como teste constante de satisfação.

Talvez por isso tanta gente viva cansada emocionalmente.

Estamos hiperconectados, mas profundamente fatigados. Conversamos com dezenas de pessoas sem necessariamente criar intimidade real com nenhuma delas. Consumimos pequenas doses de validação instantânea: um match, uma curtida, uma resposta rápida, um elogio. São pequenas descargas emocionais que alimentam o ego momentaneamente, mas raramente constroem permanência.

Lembrei de um vídeo engraçado, mas profundamente simbólico. A mulher escolhia os tomates e os colocava na sacola. O marido pegava exatamente o mesmo tomate da sacola e devolvia para ela como sugestão. Então ela recusava o tomate e o jogava novamente no meio dos outros, simplesmente porque não tinha sido ela quem escolheu. A cena se repetia até ela perceber que sua própria sacola estava vazia. Furiosa, brigava com o companheiro sem perceber que havia descartado exatamente aquilo que já tinha escolhido antes (LINK).

Talvez exista algo muito contemporâneo nessa cena.

Queremos escolher tudo sozinhos. Quando alguém valida demais, sugere demais ou facilita demais, o encanto desaparece. A autonomia da escolha parece valer mais do que a própria escolha. Existe quase uma erotização da conquista difícil. Quando algo parece facilmente disponível, perde valor simbólico. O desejo contemporâneo parece funcionar mais pela excitação da busca do que pela experiência da permanência.

Bom, aqui somos tomates.

Estamos ali para sermos escolhidos. Dependendo do gosto de quem passa pela banca, podemos despertar interesse ou sermos completamente ignorados. Às vezes somos levados para a sacola. Outras vezes ficamos esquecidos entre centenas de opções semelhantes. E mesmo quando somos escolhidos, isso não significa muita coisa. Vamos para a fruteira da casa de alguém e permanecemos ali, esperando.

Esperando uma conversa continuar.
Esperando um convite acontecer.
Esperando que o interesse sobreviva aos próximos matches.
Esperando não sermos apenas mais uma possibilidade guardada para depois.

Talvez essa seja a grande tragédia emocional dos aplicativos: eles não criaram apenas novas formas de encontro. Criaram também novas formas de adiamento. As pessoas acumulam contatos como quem abastece uma despensa emocional. Matches viram estoque afetivo. Conversas ficam em suspensão. Vínculos permanecem em banho-maria enquanto novas possibilidades continuam surgindo infinitamente na tela.

Criamos uma espécie de “fruteira emocional contemporânea”.

Pessoas guardadas para depois.
Conversas interrompidas.
Relações em estado de espera.
Afetos congelados pela abundância de opções.

E então o tempo passa.

O consumidor sai para jantar fora. Recebe outros convites. Conhece novos tomates em outras bancas. Alguns daqueles tomates escolhidos continuam esquecidos na fruteira. Até que um dia ele olha novamente e percebe que já passaram do ponto.

O destino final é o descarte.

E talvez o ghosting seja exatamente isso: o descarte silencioso daquilo que perdeu utilidade emocional antes mesmo de amadurecer como vínculo. Sem explicação. Sem encerramento. Sem elaboração. Apenas o desaparecimento lento de alguém que antes parecia interessado.

O problema é que ninguém passa ileso por isso.

A repetição constante dessas experiências cria insegurança afetiva, medo de vulnerabilidade e dificuldade de entrega. As pessoas começam a entrar nos aplicativos tentando evitar sofrimento, mas acabam reproduzindo exatamente as mesmas dinâmicas que as feriram. Tornam-se mais defensivas, mais superficiais, mais rápidas, mais descartáveis.

E então acontece algo perigoso: começamos a consumir pessoas da mesma forma que consumimos conteúdo.

Rápido.
Fragmentado.
Ansioso.
Substituível.

Talvez a pior parte disso tudo seja perceber que não somos apenas os tomates esquecidos. Também somos os consumidores. Também escolhemos, comparamos, adiamos, ignoramos, acumulamos e descartamos pessoas sem perceber. Criticamos a superficialidade enquanto deslizamos rostos com o dedo. Reclamamos da falta de profundidade enquanto mantemos dezenas de conversas mornas ao mesmo tempo. Nos tornamos participantes ativos de uma lógica emocional baseada na abundância, no imediatismo e na constante sensação de que talvez exista alguém melhor logo na próxima rolagem de tela.

O sociólogo Zygmunt Bauman chamava isso de relações líquidas: vínculos frágeis, flexíveis e facilmente substituíveis (link trabalho científico sobre assunto). Mas talvez hoje já tenhamos ido além da liquidez. Talvez estejamos vivendo relações em estado de vitrine. Relações que precisam parecer interessantes o tempo inteiro para não serem descartadas.

E no meio dessa feira digital do amor, algumas perguntas começam a ecoar silenciosamente:

O que estamos fazendo aqui?
Isso realmente leva alguém a algum lugar?
Ainda temos coragem de construir permanência?
Ainda sabemos aprofundar vínculos?
Ou nos acostumamos apenas a consumir pessoas emocionalmente?

Talvez o problema não esteja apenas nos aplicativos. Talvez esteja em nós. Na maneira como aprendemos a desejar sem permanecer, consumir sem aprofundar e substituir sem elaborar. Transformamos relações humanas em experiências rápidas, organizadas numa vitrine infinita de rostos, expectativas e projeções.

No fim, talvez a maior pobreza dos aplicativos de relacionamento não seja a falta de opções.

Talvez seja a falta de presença.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O livro que atravessou minha infância

Quando criança, minha mãe tinha múltiplas jornadas diárias, com a agenda lotadíssima. Cabeleireira na maior parte do dia, precisava conciliar os cuidados com meu pai, meus irmãos e toda a comunidade. Isso mesmo, ela estava sempre em função de cuidar de toda a vizinhança, e não estou falando apenas das casas perto da minha. Estava sempre envolvida em alguma ação social pelo bairro e pela região. Cortava cabelos e tirava piolhos de escolas inteiras. Cuidava de uma dúzia de capelinhas que peregrinavam pelas casas da região. Promovia rifas, chás, almoços e galetos para ajudar a comunidade católica do bairro.

E eu? Lógico que ela acabava ficando quase sem tempo para cuidar de mim. Mandava-me para a casa de parentes, vizinhos e outros lugares, mas, na maior parte do tempo, eu ficava brincando na rua mesmo. Eu era muito moleque, andava pelos matos e pelas casas de amigos. Ainda assim, minha mãe priorizava que eu tivesse algum acolhimento maior e, nessas idas e vindas, mandava-me para a casa da dona Carmem e do seu Napoleão, que tinham quatro filhos. Havia um diferencial importante: ela era professora e sabia lidar com crianças. Além disso, a filha mais jovem, um pouco mais velha que eu, adorava brincar de lecionar comigo. Elas ajudaram, e muito, na minha alfabetização e educação.

Nessas aulas, ela lia histórias e, um dia, acabou me dando meu primeiro livro, um exemplar em preto e branco de Lucia Monteiro Casasanta, com o título As Mais Belas Histórias. Tinha tamanho pocket, páginas em preto e branco e uma capa azul com alguns bichinhos. Guardei aquele livro por muitos e muitos anos, e até a fase adulta ele ainda estava pela minha casa. Em determinado momento, decidi que precisava compartilhar o conhecimento com outras pessoas e acabei doando aquele livro maravilhoso, cheio de histórias que prendiam a atenção de qualquer criança.

Como eu adorava livros coloridos, e na escola as professoras, quando me colocavam de castigo, geralmente me mandavam para a biblioteca, eu folheava dezenas de livros, todos coloridos. Alguns tinham, inclusive, imagens que se mexiam, numa espécie de três dimensões. Chegava em casa e ia folhear meu livro em preto e branco. Até que, um dia, resolvi colorir as imagens com lápis de cor, para que ficasse um pouco mais parecido com os da escola. Mais tarde, a Nádia me ajudou a aprender a desenhar, colocando papel de seda sobre os desenhos do livro e ensinando-me a passar o lápis para refazer as imagens. Essa experiência foi o começo de uma habilidade artística que mais tarde se tornaria importante na minha vida profissional.

Minha educação formal era precária. Na escola inicial, os professores viviam em greve e, como a escola onde eu estudava ficava no meio da vila, no morro, havia muito descaso com os alunos, sem qualquer preocupação com um ensino de qualidade. Além disso, eu era hostilizado por crianças e professores, ou seja, vivia em um clima tenso e degradante. Quando iniciei a quarta série, eu não aguentava mais aquele local. Meus amigos já escreviam poesias, falavam outros idiomas e conheciam muito de história e geografia, enquanto eu não sabia absolutamente nada.

Pedi então à minha mãe para trocar de escola e sugeri o Colégio Inácio Montanha, onde meu irmão mais velho havia estudado e onde outros amigos do bairro, com mais conhecimento educacional do que eu, também estudavam. Ah, e diziam que a merenda era bem melhor, hehe. Minha mãe me pegou pela mão e me levou até lá. Fomos recebidos pela diretora, minha mãe explicou superficialmente a situação, a diretora reuniu-se com outras professoras e, depois de um tempo, voltou para informar que não havia vaga. Pronto, chorei cântaros por ter que voltar para aquele lugar horrível e não conseguir o ensino de qualidade que eu tanto precisava. Minha mãe, consternada, me abraçou e chorou compulsivamente comigo. Estávamos sentados em um banco no corredor, em horário de recreio, e todos que passavam viam a cena.

Tristes, levantamos e começamos a sair, quando surgiu outra pessoa, que se apresentou como vice-diretora e disse: esperem, quero ver uma coisa. Aguardem mais um pouco, por favor. Em seguida, voltou e avisou: consegui uma vaga, você vai estudar nesta escola. Foi uma das maiores alegrias da minha vida. Eu finalmente estava rompendo o tecido social de viver exclusivamente na periferia. Era, de certa forma, minha primeira vitória simbólica na vida.

Nos primeiros dias de aula, senti um choque cultural. A meninada era mais moderninha, usava roupas transadas e tinha estudos muito mais avançados que os meus. Minha família tinha um orçamento extremamente apertado, e não sobrava dinheiro para nada. Minhas roupas eram, em geral, reaproveitadas das roupas velhas dos meus irmãos, então minha aparência destoava bastante da dos colegas. Na sala de aula, o único lugar que sobrou para mim foi uma classe no fundo da sala.

A primeira professora que entrou, em vez de dar um discurso de boas-vindas, falou como se estivéssemos em um campo de concentração ou presídio, tratando-nos como se todos fôssemos marginais. Em determinado momento, ela olhou para o fundo da sala, mirou meus olhos, franziu a testa, cerrou os olhos e disse: “Eu conheço muito bem quem são os piores, aqueles que são delinquentes e que serão tratados com todo rigor”. Pensei comigo: saio do morro para me livrar do assédio moral e essa é a recepção que recebo. Para completar, a meninada viu nisso uma oportunidade de começar a me assediar também. Por sorte, uma colega, também da periferia da Grande Cruzeiro, saiu em minha defesa, e quase ninguém deu continuidade ao bullying. Ainda assim, ele existiu, e o pior é que partiu de pessoas de quem eu era amigo.

Como eu era um estranho no ninho, sentia-me acuado e precisava me esconder. Refugiava-me na biblioteca, onde passava quase todos os recreios, encantado em folhear aqueles livros coloridos. Confesso que sempre gostei mais dos desenhos do que da leitura em si. Amava observar cada curva, cada detalhe.

Em casa, havia aquele livro, minha maior relíquia. Eu gostava tanto dele que nem deixava a meninada que acompanhava os pais ao salão de beleza, que funcionava na sala da minha casa, chegar perto. Com o tempo, acabei ganhando um exemplar idêntico, mas aquele primeiro ficou comigo por muito tempo.

No início de fevereiro deste ano, apareceu no Facebook a informação de que a Nádia estava de aniversário. Enviei a seguinte mensagem:
Oi, minha professora. Obrigado por ter sido minha amiga na minha mais tenra idade e por ter me presenteado com meu primeiro livro, cheio de histórias tão lindas. Ainda me lembro das torradas com manteiga e de você conversando comigo sobre tantas coisas legais. Muito obrigado por ter ajudado a forjar a pessoa que sou hoje. Que o teu dia de aniversário seja um reabastecimento de tudo que há de melhor nesta vida. Feliz aniversário, minha querida amiga. Deus te abençoe eternamente!

Ela respondeu:
Oi, Di. Quanta coisa bonita tu fala nesta mensagem e na tua visão sobre mim. Não sabia que tinha feito tudo isso. Verdade que te dei teu primeiro livro? Qual foi? Interessante, porque acabei virando bibliotecária! Kkkkkk. Obrigada pela mensagem e pelas felicitações!

Na minha vida sempre acontecem muitas coincidências. Alguns chamam de destino, outros de sincronicidade. O fato é que essas coisas extraordinárias acontecem com frequência. O que seria apenas uma conversa com a Nádia acabou se transformando, um mês depois, em uma grande surpresa. Lembrei do nome do livro e fui procurá-lo na internet. Para minha surpresa, encontrei a capa em um site de leilões. Cliquei no link e fui olhar as imagens escaneadas. O livro que estava à venda como relíquia, por aproximadamente R$ 500,00, era exatamente o meu livro. Isso mesmo, O MEU LIVRO, aquele que ganhei quando criança estava lá na internet para ser leiloado. O livro que um dia doei para alguma criança, creche ou ação social. Não lembro para quem, mas a surpresa foi gigantesca ao ver que as pinturas eramexatamente as mesmas que eu havia feito em um passado distante.








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Essa descoberta me fez sentir uma sincronicidade incrível. O Universo me trouxe de volta o mesmo livro, conectando passado e presente, memória e realidade, minha infância e a amizade da Nádia. Foi como se tudo tivesse conspirado para que eu pudesse reencontrar aquele livro que marcou minha vida.

Viva as coincidências da vida.


Por Adilson Di @adilsondi

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

​Natal, um dia triste?

Todos os anos eu esperava ansioso a chegada do Papai Noel. Ficava preocupado com como ele entraria pela chaminé do fogão a lenha de nossa casa. O pensamento era: “Puts, os presentes são pequenos porque não passariam na largura do cano da chaminé”. Mas todo ano ele vinha e deixava algum presente, mesmo que simples, mas ele vinha. Eu estranhava porque os meninos da redondeza ganhavam presentes mais vistosos, talvez porque a chaminé deles fosse mais larga, mas o que era estranho mesmo era que eu fazia de tudo para ser bonzinho e comportado. Inclusive, evitava ao máximo reagir às provocações e agressões que sofri durante muitos anos, pois, se brigasse na rua, eu apanhava em casa.


Meu pai adorava juntar família e amigos, sempre tinha festa, e a alegria durava enquanto os convidados estavam conosco. A parte mais legal era quando saíamos para ver os fogos de artifício sendo estourados nas casas do outro morro, de fronte ao nosso, o cumprimento aos vizinhos, as visitas do senhor parecido com o Preto Velho, que passava em nossa casa fazendo uma espécie de terno de reis com sua gaitinha de oito baixos e, finalmente, quando pude começar a seguir os cortejos do bloco Sem Ritmo, que era formado pelos amigos do meu irmão, que era dez anos mais velho que eu.


Na mais tenra idade, eu adorava ficar olhando para o céu para ver se enxergava o trenó passar, mas ele nunca passou. Eu ficava muito triste porque queria fazer um pedido muito especial para ele: que meus pais não brigassem após a festa e, principalmente, que a violência não recaísse para o meu lado, o que era muito difícil, pois eu dormia num berço no mesmo quarto que eles até meus nove anos. Talvez essa falta de privacidade pudesse ser um dos motivadores.


Meu pai dizia para todo mundo, a vida toda, que me admirava demais por eu sempre guardar segredo, por nunca contar nada para ninguém, principalmente para minha mãe ou irmãos. Lógico, se eu contasse qualquer merda que um ou outro fazia, ia dar problema e o pau ia comer. Como eu detestava violência, ficava na minha e “guardava” tudo comigo. Isso acumulou-se por muitos anos, até começar a explodir na pior forma de rebeldia. Arrumei incontáveis brigas em minha adolescência e juventude, me acidentei de moto várias vezes, coisas das quais me arrependo amargamente hoje em dia. A informação dessas atitudes condenáveis nunca chegou à minha casa, pois eu guardava segredo de tudo. Essas atitudes talvez fossem para me libertar das incontáveis vezes que apanhei em casa, na escola e na rua, ou porque toda semana era colocado de castigo atrás da porta da casa, dentro do roupeiro ou de joelhos no milho. Pois é, sim, fui muitas vezes duramente castigado simplesmente por chorar ou reclamar da violência que acontecia no quarto em que eu dormia quando criança.


Mesmo na mais tenra idade, com cerca de oito ou nove anos, em noites de Natal eu fazia de tudo para não estar em casa. Saía com algum amigo para zanzar pelas ruas do bairro, ia à casa de um ou de outro, exatamente para não presenciar a violência que certamente aconteceria em casa ou na vizinhança. Tinha um vizinho que todo Natal quebrava a casa inteira dele e batia em toda a família.


Eu saía para festas dos terreiros, para as festas da comunidade negra do bairro ou simplesmente ficava por horas no meio do mato que tinha em nosso pátio ou ao redor de nossa casa. Ficava lá, eu, Deus, o silêncio, com o som das festas ao fundo, os bichos, o medo, só esperando a noite passar. Tinha uma árvore do outro lado da rua que era a minha preferida. De lá eu podia ver toda a movimentação da rua e ficava perto de casa, caso precisasse fugir de algum perigo.


Os anos passaram, a violência natalina nunca cessou, mas eu comecei a ter idade suficiente para poder ir a festas e não ficar mais em casa após a meia-noite. Isso perdurou até eu completar dezoito anos, quando meu pai saiu de casa.


Após a saída dele, por incrível que pareça, a casa ficou ainda mais triste, pois não aconteceram mais as grandes festas. Minha mana tentou manter a alegria preparando exaustivamente nossas ceias só para a mãe, ela e eu, mas nunca mais foi a mesma coisa. O mano mais velho já tinha casado e iniciado seus próprios BOs, o do meio estava sempre aprontando alguma coisa, em geral um acidente de moto, e minha mãe era só melancolia, arremetimentos, idas às missas do galo e nenhum motivo para comemorar ou reclamar das merdas de meu pai.


Passei praticamente todos os Natais ao lado de minha mãe. Nos últimos anos era só eu e ela, porque ela detestava ir para as festas natalinas que meus irmãos organizavam na praia, pois meu irmão continuava bebendo e tendo atitudes violentas com os filhos, como sempre ocorrera em nossa casa ao longo da vida. Pois é, talvez ele nem saiba disso, mas ele reproduziu muito as atitudes de nosso pai.


Hoje em dia não acho a menor graça nessa festa comercial. Todos os outros dias do ano são mais leves, até mesmo o Dia de Finados, pois, nesse, eu tenho só boas lembranças daqueles que já partiram.


A modernidade nos trouxe os streamings, com muitos filmes que abordam a mesma situação ao redor do mundo, portanto não estou só nesse sentimento estranho que carrego nessa data. Estou com cinquenta e seis anos e não sei se um dia passará esse gosto amargo que tenho nesse dia triste.


Faço esse relato para que as pessoas atentem-se ao verdadeiro propósito da data, que é o nascimento da luz, da ressignificação e do amor. O maior presente é o carinho, o respeito, a dignidade e todos os sentimentos bons que pudermos compartilhar com outras pessoas, e não meros objetos. Ensinem as crianças sobre isso. Digam, sim, que o Papai Noel não existe e que ele é uma simples alegoria comercial, mas que o que mais importa é a fé, o amor e o renascimento constante de Deus em nossos corações.


Feliz Natal


domingo, 14 de dezembro de 2025

O que fica?

E se a partida fosse antes da partida? E se o silêncio fosse permanente, em vez de temporário?


O que seriam dos momentos se já não houvesse momentos, apenas ecos de outros momentos?

Hei de guardar lembranças antes que a memória vague e se torne apenas uma vaga lembrança.


Sonhos, nem sei se ainda os tenho, pois já nem me lembro mais.

Já vi velas sendo sopradas. Umas velejavam, outras eram apagadas pelo sopro infantil.

Hoje, pagam promessas ou homenageiam os que pegaram o trem antes.


No fim, resta o instante que insiste em existir.

Talvez viver seja isso: cuidar do agora antes que ele também parta,

seja o bolo, o coração

ou o caminho que segue rumo aos recomeços e aos fins.


Adilson Di @AdilsonDi

segunda-feira, 30 de junho de 2025

As Medidas do Sabor


O problema de tomar medidas

é saber qual sabor escolher.

Morango, tempos, distâncias, atitudes?

Alguns são palatáveis, outros bem amargos.


Pensamento que, por si só, já é um poema,

pois inevitavelmente gera reflexão,

tanto na cabeça quanto no coração.

Mas é preciso ir além:

as medidas devem ser comigo ou com alguém?


Temos o relógio, a régua e a decisão,

mas também o liquidificador.

Raciocino com a lógica

ou jogo tudo no triturador?


Às vezes, degustar o resultado de uma centripetada

é bem melhor do que esperar ou me deslocar.

Vamos provar as misturas que a vida nos serve

e deixar que as medidas cumpram seus ciclos

e nos saciem com o que há de melhor por vir.


@AdilsonDi

domingo, 15 de junho de 2025

Fases frias

Tem momentos em que tudo esfria.

A alma, o olhar, as respostas.

Um balde de água fria vindo de onde menos se espera —

da vida, das pessoas, ou de nós mesmos.


A gente espera o sim,

mas vem o não.

Busca um abrigo,

mas encontra portas entreabertas,

cheias de incerteza.


Tomar um gelo não é só silêncio do outro.

É também o eco das nossas próprias dúvidas.

É aquele instante em que o coração se retrai,

e a esperança pede um tempo.


Nem tudo que parece furada era ilusão desde o início.

Às vezes, era só o tempo errado.

Ou o lugar errado.

Ou a gente tentando ser certo demais onde não cabia mais certeza.


Mas o frio ensina.

Dói, mas ensina.

Ensina a reconhecer calor de verdade.

A valorizar o que permanece.

E a não se perder onde não há reciprocidade.


@AdilsonDi


sábado, 7 de junho de 2025

Poeira

Fui, voltei, pra lá e pra cá.

Saí quantas vezes eu quis.

Fiquei por vontade, por desejo,

mesmo que sem sentido.

O que importava era estar,

compartilhar, sentir, vivenciar.


Pela ampulheta escorriam os instantes.

O fim do setênio iria chegar;

alguém precisava decidir:

virar, mudar, sacudir, tentar.


A areia escorreu, e ninguém mexeu.

O fim do ciclo chegou.

Aquilo que parecia infinito findou,

e agora fica ali, na estante, empoeirando.


Cabe a mim levantar do sofá,

sacudir a poeira

e colocar o objeto no baú das memórias,

que escorrerão por entre as frestas do tempo,

até um novo tempo começar.


@AdilsonDi