Quando criança, minha mãe tinha múltiplas jornadas diárias, com a agenda lotadíssima. Cabeleireira na maior parte do dia, precisava conciliar os cuidados com meu pai, meus irmãos e toda a comunidade. Isso mesmo, ela estava sempre em função de cuidar de toda a vizinhança, e não estou falando apenas das casas perto da minha. Estava sempre envolvida em alguma ação social pelo bairro e pela região. Cortava cabelos e tirava piolhos de escolas inteiras. Cuidava de uma dúzia de capelinhas que peregrinavam pelas casas da região. Promovia rifas, chás, almoços e galetos para ajudar a comunidade católica do bairro.
E eu? Lógico que ela acabava ficando quase sem tempo para cuidar de mim. Mandava-me para a casa de parentes, vizinhos e outros lugares, mas, na maior parte do tempo, eu ficava brincando na rua mesmo. Eu era muito moleque, andava pelos matos e pelas casas de amigos. Ainda assim, minha mãe priorizava que eu tivesse algum acolhimento maior e, nessas idas e vindas, mandava-me para a casa da dona Carmem e do seu Napoleão, que tinham quatro filhos. Havia um diferencial importante: ela era professora e sabia lidar com crianças. Além disso, a filha mais jovem, um pouco mais velha que eu, adorava brincar de lecionar comigo. Elas ajudaram, e muito, na minha alfabetização e educação.Nessas aulas, ela lia histórias e, um dia, acabou me dando meu primeiro livro, um exemplar em preto e branco de Lucia Monteiro Casasanta, com o título As Mais Belas Histórias. Tinha tamanho pocket, páginas em preto e branco e uma capa azul com alguns bichinhos. Guardei aquele livro por muitos e muitos anos, e até a fase adulta ele ainda estava pela minha casa. Em determinado momento, decidi que precisava compartilhar o conhecimento com outras pessoas e acabei doando aquele livro maravilhoso, cheio de histórias que prendiam a atenção de qualquer criança.
Como eu adorava livros coloridos, e na escola as professoras, quando me colocavam de castigo, geralmente me mandavam para a biblioteca, eu folheava dezenas de livros, todos coloridos. Alguns tinham, inclusive, imagens que se mexiam, numa espécie de três dimensões. Chegava em casa e ia folhear meu livro em preto e branco. Até que, um dia, resolvi colorir as imagens com lápis de cor, para que ficasse um pouco mais parecido com os da escola. Mais tarde, a Nádia me ajudou a aprender a desenhar, colocando papel de seda sobre os desenhos do livro e ensinando-me a passar o lápis para refazer as imagens. Essa experiência foi o começo de uma habilidade artística que mais tarde se tornaria importante na minha vida profissional.
Minha educação formal era precária. Na escola inicial, os professores viviam em greve e, como a escola onde eu estudava ficava no meio da vila, no morro, havia muito descaso com os alunos, sem qualquer preocupação com um ensino de qualidade. Além disso, eu era hostilizado por crianças e professores, ou seja, vivia em um clima tenso e degradante. Quando iniciei a quarta série, eu não aguentava mais aquele local. Meus amigos já escreviam poesias, falavam outros idiomas e conheciam muito de história e geografia, enquanto eu não sabia absolutamente nada.
Pedi então à minha mãe para trocar de escola e sugeri o Colégio Inácio Montanha, onde meu irmão mais velho havia estudado e onde outros amigos do bairro, com mais conhecimento educacional do que eu, também estudavam. Ah, e diziam que a merenda era bem melhor, hehe. Minha mãe me pegou pela mão e me levou até lá. Fomos recebidos pela diretora, minha mãe explicou superficialmente a situação, a diretora reuniu-se com outras professoras e, depois de um tempo, voltou para informar que não havia vaga. Pronto, chorei cântaros por ter que voltar para aquele lugar horrível e não conseguir o ensino de qualidade que eu tanto precisava. Minha mãe, consternada, me abraçou e chorou compulsivamente comigo. Estávamos sentados em um banco no corredor, em horário de recreio, e todos que passavam viam a cena.
Tristes, levantamos e começamos a sair, quando surgiu outra pessoa, que se apresentou como vice-diretora e disse: esperem, quero ver uma coisa. Aguardem mais um pouco, por favor. Em seguida, voltou e avisou: consegui uma vaga, você vai estudar nesta escola. Foi uma das maiores alegrias da minha vida. Eu finalmente estava rompendo o tecido social de viver exclusivamente na periferia. Era, de certa forma, minha primeira vitória simbólica na vida.
Nos primeiros dias de aula, senti um choque cultural. A meninada era mais moderninha, usava roupas transadas e tinha estudos muito mais avançados que os meus. Minha família tinha um orçamento extremamente apertado, e não sobrava dinheiro para nada. Minhas roupas eram, em geral, reaproveitadas das roupas velhas dos meus irmãos, então minha aparência destoava bastante da dos colegas. Na sala de aula, o único lugar que sobrou para mim foi uma classe no fundo da sala.
A primeira professora que entrou, em vez de dar um discurso de boas-vindas, falou como se estivéssemos em um campo de concentração ou presídio, tratando-nos como se todos fôssemos marginais. Em determinado momento, ela olhou para o fundo da sala, mirou meus olhos, franziu a testa, cerrou os olhos e disse: “Eu conheço muito bem quem são os piores, aqueles que são delinquentes e que serão tratados com todo rigor”. Pensei comigo: saio do morro para me livrar do assédio moral e essa é a recepção que recebo. Para completar, a meninada viu nisso uma oportunidade de começar a me assediar também. Por sorte, uma colega, também da periferia da Grande Cruzeiro, saiu em minha defesa, e quase ninguém deu continuidade ao bullying. Ainda assim, ele existiu, e o pior é que partiu de pessoas de quem eu era amigo.
Como eu era um estranho no ninho, sentia-me acuado e precisava me esconder. Refugiava-me na biblioteca, onde passava quase todos os recreios, encantado em folhear aqueles livros coloridos. Confesso que sempre gostei mais dos desenhos do que da leitura em si. Amava observar cada curva, cada detalhe.
Em casa, havia aquele livro, minha maior relíquia. Eu gostava tanto dele que nem deixava a meninada que acompanhava os pais ao salão de beleza, que funcionava na sala da minha casa, chegar perto. Com o tempo, acabei ganhando um exemplar idêntico, mas aquele primeiro ficou comigo por muito tempo.
No início de fevereiro deste ano, apareceu no Facebook a informação de que a Nádia estava de aniversário. Enviei a seguinte mensagem:
“Oi, minha professora. Obrigado por ter sido minha amiga na minha mais tenra idade e por ter me presenteado com meu primeiro livro, cheio de histórias tão lindas. Ainda me lembro das torradas com manteiga e de você conversando comigo sobre tantas coisas legais. Muito obrigado por ter ajudado a forjar a pessoa que sou hoje. Que o teu dia de aniversário seja um reabastecimento de tudo que há de melhor nesta vida. Feliz aniversário, minha querida amiga. Deus te abençoe eternamente!”
Ela respondeu:
“Oi, Di. Quanta coisa bonita tu fala nesta mensagem e na tua visão sobre mim. Não sabia que tinha feito tudo isso. Verdade que te dei teu primeiro livro? Qual foi? Interessante, porque acabei virando bibliotecária! Kkkkkk. Obrigada pela mensagem e pelas felicitações!”
Na minha vida sempre acontecem muitas coincidências. Alguns chamam de destino, outros de sincronicidade. O fato é que essas coisas extraordinárias acontecem com frequência. O que seria apenas uma conversa com a Nádia acabou se transformando, um mês depois, em uma grande surpresa. Lembrei do nome do livro e fui procurá-lo na internet. Para minha surpresa, encontrei a capa em um site de leilões. Cliquei no link e fui olhar as imagens escaneadas. O livro que estava à venda como relíquia, por aproximadamente R$ 500,00, era exatamente o meu livro. Isso mesmo. O livro que um dia doei para alguma criança, creche ou ação social. Não lembro para quem, mas a surpresa foi gigantesca ao ver as pinturas exatamente como eu havia feito em um passado distante.
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Essa descoberta me fez sentir uma sincronicidade incrível. O Universo me trouxe de volta o mesmo livro, conectando passado e presente, memória e realidade, minha infância e a amizade da Nádia. Foi como se tudo tivesse conspirado para que eu pudesse reencontrar aquele livro que marcou minha vida.
Viva as coincidências da vida.
Por Adilson Di @adilsondi










