Todos os anos eu esperava ansioso a chegada do Papai Noel. Ficava preocupado com como ele entraria pela chaminé do fogão a lenha de nossa casa. O pensamento era: “Puts, os presentes são pequenos porque não passariam na largura do cano da chaminé”. Mas todo ano ele vinha e deixava algum presente, mesmo que simples, mas ele vinha. Eu estranhava porque os meninos da redondeza ganhavam presentes mais vistosos, talvez porque a chaminé deles fosse mais larga, mas o que era estranho mesmo era que eu fazia de tudo para ser bonzinho e comportado. Inclusive, evitava ao máximo reagir às provocações e agressões que sofri durante muitos anos, pois, se brigasse na rua, eu apanhava em casa.
Meu pai adorava juntar família e amigos, sempre tinha festa, e a alegria durava enquanto os convidados estavam conosco. A parte mais legal era quando saíamos para ver os fogos de artifício sendo estourados nas casas do outro morro, de fronte ao nosso, o cumprimento aos vizinhos, as visitas do senhor parecido com o Preto Velho, que passava em nossa casa fazendo uma espécie de terno de reis com sua gaitinha de oito baixos e, finalmente, quando pude começar a seguir os cortejos do bloco Sem Ritmo, que era formado pelos amigos do meu irmão, que era dez anos mais velho que eu.
Na mais tenra idade, eu adorava ficar olhando para o céu para ver se enxergava o trenó passar, mas ele nunca passou. Eu ficava muito triste porque queria fazer um pedido muito especial para ele: que meus pais não brigassem após a festa e, principalmente, que a violência não recaísse para o meu lado, o que era muito difícil, pois eu dormia num berço no mesmo quarto que eles até meus nove anos. Talvez essa falta de privacidade pudesse ser um dos motivadores.
Meu pai dizia para todo mundo, a vida toda, que me admirava demais por eu sempre guardar segredo, por nunca contar nada para ninguém, principalmente para minha mãe ou irmãos. Lógico, se eu contasse qualquer merda que um ou outro fazia, ia dar problema e o pau ia comer. Como eu detestava violência, ficava na minha e “guardava” tudo comigo. Isso acumulou-se por muitos anos, até começar a explodir na pior forma de rebeldia. Arrumei incontáveis brigas em minha adolescência e juventude, me acidentei de moto várias vezes, coisas das quais me arrependo amargamente hoje em dia. A informação dessas atitudes condenáveis nunca chegou à minha casa, pois eu guardava segredo de tudo. Essas atitudes talvez fossem para me libertar das incontáveis vezes que apanhei em casa, na escola e na rua, ou porque toda semana era colocado de castigo atrás da porta da casa, dentro do roupeiro ou de joelhos no milho. Pois é, sim, fui muitas vezes duramente castigado simplesmente por chorar ou reclamar da violência que acontecia no quarto em que eu dormia quando criança.
Mesmo na mais tenra idade, com cerca de oito ou nove anos, em noites de Natal eu fazia de tudo para não estar em casa. Saía com algum amigo para zanzar pelas ruas do bairro, ia à casa de um ou de outro, exatamente para não presenciar a violência que certamente aconteceria em casa ou na vizinhança. Tinha um vizinho que todo Natal quebrava a casa inteira dele e batia em toda a família.
Eu saía para festas dos terreiros, para as festas da comunidade negra do bairro ou simplesmente ficava por horas no meio do mato que tinha em nosso pátio ou ao redor de nossa casa. Ficava lá, eu, Deus, o silêncio, com o som das festas ao fundo, os bichos, o medo, só esperando a noite passar. Tinha uma árvore do outro lado da rua que era a minha preferida. De lá eu podia ver toda a movimentação da rua e ficava perto de casa, caso precisasse fugir de algum perigo.
Os anos passaram, a violência natalina nunca cessou, mas eu comecei a ter idade suficiente para poder ir a festas e não ficar mais em casa após a meia-noite. Isso perdurou até eu completar dezoito anos, quando meu pai saiu de casa.
Após a saída dele, por incrível que pareça, a casa ficou ainda mais triste, pois não aconteceram mais as grandes festas. Minha mana tentou manter a alegria preparando exaustivamente nossas ceias só para a mãe, ela e eu, mas nunca mais foi a mesma coisa. O mano mais velho já tinha casado e iniciado seus próprios BOs, o do meio estava sempre aprontando alguma coisa, em geral um acidente de moto, e minha mãe era só melancolia, arremetimentos, idas às missas do galo e nenhum motivo para comemorar ou reclamar das merdas de meu pai.
Passei praticamente todos os Natais ao lado de minha mãe. Nos últimos anos era só eu e ela, porque ela detestava ir para as festas natalinas que meus irmãos organizavam na praia, pois meu irmão continuava bebendo e tendo atitudes violentas com os filhos, como sempre ocorrera em nossa casa ao longo da vida. Pois é, talvez ele nem saiba disso, mas ele reproduziu muito as atitudes de nosso pai.
Hoje em dia não acho a menor graça nessa festa comercial. Todos os outros dias do ano são mais leves, até mesmo o Dia de Finados, pois, nesse, eu tenho só boas lembranças daqueles que já partiram.
A modernidade nos trouxe os streamings, com muitos filmes que abordam a mesma situação ao redor do mundo, portanto não estou só nesse sentimento estranho que carrego nessa data. Estou com cinquenta e seis anos e não sei se um dia passará esse gosto amargo que tenho nesse dia triste.
Faço esse relato para que as pessoas atentem-se ao verdadeiro propósito da data, que é o nascimento da luz, da ressignificação e do amor. O maior presente é o carinho, o respeito, a dignidade e todos os sentimentos bons que pudermos compartilhar com outras pessoas, e não meros objetos. Ensinem as crianças sobre isso. Digam, sim, que o Papai Noel não existe e que ele é uma simples alegoria comercial, mas que o que mais importa é a fé, o amor e o renascimento constante de Deus em nossos corações.
Feliz Natal






